Certo urso chegara ao inverno e se considerava preparado para dormir por longos meses. Estava velho e não se sentia seguro quanto ao gosto de despertar ao final da estação. A caverna escolhida, apesar de estreita, assegurava, por isso mesmo, a impossibilidade de compartilhá- la com alguém, pois entendia que a solidão que carregava dentro de si era só sua, apesar de quase ninguém notá- la. Uma mistura de pudor e um certo sentido de intimidade o haviam, pouco a pouco, encurvado sobre si mesmo. Seu corpo ficara pesado e quase o estorvava, seu pêlo perdera o brilho e também os olhos enxergavam mal. Antes de entrar na caverna, decidiu sentir um último prazer: roçar sua pele no tronco de uma velha árvore seca e rugosa. Eram prazeres simples, queridos, solitários e que não exigiam grande esforço. Ao jogar contra a árvore seu pesado corpo, um pequeno pintassilgo espantou- se, pois havia feito seu ninho no ôco da árvore.

– Que susto, urso! Que fazes?

– Me coço, simplesmente, me coço… respondeu o urso.

– Pareces uma árvore roçando em outra! – E, efetivamente, a pelagem descolorida e cinzenta do urso se confundia com a dureza da árvore rugosa.

– Logo irei dormir, chega o inverno, o frio, e desaparece o mel, e as geadas terminam com o resto de alimento.

– É verdade, eu também passarei frio e fome neste inseguro ôco de árvore, mas tu que tens pele grossa ainda tem proteção. Eu só tenho minhas leves plumas…disse tristonho o pintassilgo.

– És pequeno e talvez caibas em minha caverna – disse subitamente o urso – , e juntos nos abrigaremos mutuamente.

– E se morreres? Estás velho…

–É meu coração que está velho, em realidade…

E assim era. O coração do urso estava morrendo lentamente e era bem provável que não suportasse outro inverno. No entanto, o pintassilgo pousara num ramo bem em frente aos olhos do urso e o olhava com atenção.

– Deixa- me ver teu coração…

O urso abriu a boca o mais que pôde para que o pintassilgo olhasse dentro de seu peito, pela garganta.

– Não consigo ver… terei que ir mais fundo…

Entrou cautelosamente para dentro da guela do urso.

– Ainda não vejo bem…

Acabou chegando no centro do peito do urso. Este, ao sentir o suave roçar das plumas dentro de si, percebeu que o sangue voltava em suas veias… Que bela sensação! Vagarosamente, o pintassilgo voltou à boca do animal e disse:

– Teu coração está muito velho, realmente, e há pouco o que fazer para revitalizá- lo.

Então, o urso teve uma idéia que considerou feliz:

– Muda para meu coração e não passarás frio, e eu… bem, voltarei a ter vida..

– Mas eu morreria!

– Não… tu serás eu e eu serei tu, disse o urso.

O pintassilgo pensou, pensou, e finalmente decidiu. Com um só golpe de asas entrou na boca do urso e este se sentiu novamente vital e vigoroso. Dizem, agora, que o urso trina com um pássaro e está aprendendo a voar, e os animais do lugar passaram a chamá-lo de “ursossilgo”, e comentam sobre a misteriosa vitalidade que apresenta; ainda que acreditem que viva só, só o urso sabe qual é a origem de seu renascimento.

Moral da História: Só se está vivo verdadeiramente se o coração canta.

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