Os papagaios voam em bandos e se alimentam fundamentalmente de sementes e pinhões das araucárias, e quando comem indicam um vigia para ficar no alto da árvore para que os alertem sobre alguma ameaça.

Estava, então, um papagaio vigia de olhos negros atento a tudo, esquadrinhava meticulosamente os lugares mais escuros e sombreados, porque o pelo do gato do mato, depredador dessas aves se mimetiza facilmente com o claro-escuro das folhagens. De repente, sentiu o cheiro característico de sangue fresco e viu um gato do mato que acabava de degolar um de seus companheiros e saltar sobre outro que alçou vôo.

O vigia saltou prontamente do galho onde estava e lançou um grito de perigo para alertar os demais que saíram voando em meio a um ruído infernal de gritos e bater de asas. Quando o bando sentiu-se fora de perigo, o vigia explicou o que tinha visto quanto à degola do papagaio de pluma branca e todos se olharam entre si. Passaram em revista os companheiros porém… Todos estavam lá, inclusive o de pluma branca. Voltaram-se para o vigia para compreender o que ocorrera, pois ninguém duvidara de sua palavra, uma vez que nenhum animal mente.

Decidiram colocar dois vigias, para que um corroborasse o que o outro visse. E iniciam a comilança dos pinhões das araucárias. Repentinamente, o novo vigia deu fortes gritos, alertou o bando do perigo enquanto o vigia de negros olhos permaneceu imóvel no seu lugar, olhando assombrado a azáfama. Um gato do mato acabava de degolar o papagaio de pluma branca. Então, todos compreenderam que primeiro vigia era adivinho, ele via o futuro. Todos se alegram muito, porque agora, pensaram, estariam seguros quanto ao que iria ocorrer.

Um grupo de jovens papagaios quis eleger o vigia como líder, pois que, acreditavam, ele seria capaz de prever perigos, adivinhar onde haveria mais sementes, etc. Porém, um papagaio mais velho disse com voz grave e profunda:

– O vigia é capaz de ver o que virá, é certo, mas não tem olhos para o presente nem para o passado, só tem memória do futuro. Se o elegermos, nos abandonaremos ao acaso e descuidaremos do presente e plasmado que é onde se gesta o futuro. Além disso, sua presença entre nós é permanente convite para ouvir augúrios, o que, como conseqüência, nos levará à resignação e passividade. Proponho que seja expulso!

– Mas isso será sua morte!- replicaram alguns.

– “Talvez, o que provaria que a clarividência é inútil para a vida – insistiu o mais velho.”

Não o expulsaram porque o vigia adivinho promete calar-se, e passou o resto de seus dias com um guia que dele cuidou como se fosse um velho inválido.

Moral da história: O futuro é bom saber mas o presente é bom viver.

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