Uma lebre bela e feliz costumava saltar pelos campos. Era bom vê-la, pois bela era. À medida em ficava adulta, também cresciam as responsabilidades, de modo que a lebrinha deixou de saltar para trabalhar. No entanto, tudo o que ganhava, gastava em coisas sem importância: um shampoo de erva aqui, um brilho para o pêlo e unhas ali… e assim vivia cheia de responsabilidades novas, dinheiro novo e compras novas. Porém, com isso, cada vez saltava menos e um pouco da beleza se foi.

Ocorre que o refúgio dos bichos do campo entrou em fase política difícil e houve desemprego geral.

-Ora – pensou a lebrinha -, ao menos eu volto a saltar se perder o meu!

E foi o que fez ao ser despedida. O gosto em saltar voltou a ser grande, e as contas a pagar também, mas sempre a vovó lebre, que a amava muito, ajudava-a, e ela continuava a comprar apesar de não ter como. Sentia falta de maiores gastos – pois eles lhe traziam a idéia de ser dona de si mesma -, e tratou de procurar outro trabalho. Afinal, o dinheiro da vovó não era muito! Achou um, mas o salário era baixo, o que a deixava nervosa.

Acontece que a vovó lebre adoeceu, e a netinha era a única pessoa – digo, bicho – que sobrara da sua pequena família. Esperou a vovó uma visita e um cuidado especial da neta…e migalhas vieram! A lebrinha sequer lembrava que a vovó existia, apesar de gostar dela, envolta nos próprios problemas de compras e gastos. Nem se deu conta quando a vovó se mudou para as montanhas devido aos pulmões fracos. Esta, triste, pensava:

-Quanto tempo minha netinha ficará sem perceber que está só? Suas compras não a preencherão nunca! Devo ter culpa nisso, mimei-a!

E voltava a arfar pensando na lebrinha que construía seu próprio abismo.

Moral da História: A vida tem buracos que não se preenchem sem laços.

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