Manhã de domingo, uma borboleta de asas multicolor saltita entre flores silvestres. que balançam ao vento. Decifrar o aroma que exala das flores e espantar insetos que pousam em suas folhas é a distração predileta da pequena voante, que só retorna ao lar após o pôr-do-sol.

Um rouxinol, vindo de uma região mais quente, aperreado com o frio que fazia naquela manhã, pousou num velho carvalho conhecido entre as borboletas como a “árvore misteriosa”, pois quem nela pousasse era acometido por calafrios e “falas” desordenadas. Mal pousara na árvore, a avezinha estrangeira começou a tremer e emitiu um canto tão agudo que a borboleta foi arrebatada para as proximidades do misterioso carvalho. Sem entender direito o que ocorreria, pois não vira quando o rouxinol ali chegara, a pequenina tentava levantar-se, mas cambaleava e logo caía sentindo dores por todo o corpo.

– Ora, ora – disse o jovem rouxinol com voz mudada, agora envelhecida e cansada -, veja quem está aqui, a borboleta que tudo sabe sobre o perfume das flores, mas esquece de si mesma ( e koff, koff…tossiu o rouxinol). Estás doente pequenina, e a cura virá das “meisinhas” (remédio no dialeto dos rouxinóis) dos sábios feiticeiros.

Sem entender o sentido dessas frases oraculares, a borboleta trêmula e com voz embargada (pois intuía o que viria pela frente), indagou:

– De onde vens estrangeiro? E por que dizes que estou doente quando não sinto nada, exceto dores no corpo pela queda que ontem sofri?

O pequenino, que já se preparava para levantar vôo, mirou-a de forma penetrante e reiterou o que dissera antes: meisinhas de sábios feiticeiros. Ôxe!, e ainda dizem que és sábia! Só sabes sobre perfumes? E sobre ti? A borboleta apenas retrucou baixinho:

– Êta bichinho compricado (ela tinha problemas com a letra “l”)! Parece que é doido! Que é que o danado quer dizer?

E o rouxinol, sacudindo as asinhas como se estivesse molhado, voou para longe.

Moral da história: Decifrar perfume de flores é fácil, difícil é descobrir (o)dores da alma

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